Da percepção ao confronto
Devaneios do caminhante solitário como processo de constatação absurda e resistência pela revolta
DOI:
https://doi.org/10.4013/con.2026.221.08Palavras-chave:
Devaneios. Absurdo. Revolta. Subsolo. Afeto.Resumo
Este artigo propõe uma leitura dos Devaneios do Caminhante Solitário (1782), de Jean-Jacques Rousseau, a partir da noção de absurdo tal como formulada posteriormente por Albert Camus, compreendida não como conceito sistemático, mas como experiência afetiva pré-filosófica. O objetivo central é investigar de que modo o afastamento social, a caminhada e a contemplação da natureza, presentes na escrita rousseauniana, podem ser interpretados como formas de resistência sensível diante da ruptura com o mundo e a sociedade. Metodologicamente, o trabalho adota um procedimento interpretativo retrospectivo, utilizando o vocabulário conceitual de Camus como chave de leitura, sem imputação anacrônica, e mobiliza figuras literárias de Dostoiévski como contrapontos críticos para delimitar a especificidade da experiência de Rousseau. Argumenta-se que, nos Devaneios, o absurdo se manifesta como um afeto inaugural – um mal-estar persistente diante do esvaziamento das promessas de sentido – que antecede sua elaboração conceitual no século XX. Como resultado, sustenta-se que Rousseau, ao transformar o exílio e a solidão em práticas de atenção sensível ao mundo, realiza uma forma discreta e não heroica de revolta, entendida como fidelidade à vida sem apelo transcendente. O artigo conclui que os Devaneios testemunham uma maneira singular de conviver com o absurdo, antecipando, em registro literário e existencial, problemas que Camus posteriormente tematizará filosoficamente.
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