doi: 10.4013/ver.2009.23.53.06

A meta-pesquisa sobre o comunicacional nos Projetos Experimentais em Comunicação da PUC Minas
The meta-analytic investigation of the Communicational in the PUC Minas University’s experimental projects on communication

José Francisco Braga
jfbraga@uai.com.br

José Milton Santos
jmilton@pucminas.br

Maria Ângela Mattos
dede_mattos@hotmail.com

Resumo. À luz de reflexões epistemológicas sobre os impasses e desafios para a construção e consolidação do saber comunicacional na contemporaneidade, este artigo tem como objetivo central analisar e discutir os principais resultados da pesquisa quantitativa e qualitativa “Encontros e Desencontros com o Saber Comunicacional: um estudo da trajetória dos Projetos Experimentais da PUC Minas”. Focaliza as interfaces e as formas de investigação adotadas nos projetos experimentais desenvolvidos por alunos do curso de Comunicação Social, das habilitações Jornalismo, Publicidade e Propaganda e Relações Públicas, no período de 1995-2005.

Abstract. The aim of this article is to analyze and discuss the main quantitative and qualitative results of the research project Meeting and Avoiding Communicational knowledge: a trajectory study of Experimental Projects of the PUC Minas. The discussion is based on epistemological reflections on the impasses and challenges for the construction and consolidation of contemporary. It focuses the interfaces and the adopted forms of inquiry in the experimental projects developed by Social Communication students in Journalism, Advertising and Propaganda and Public Relations, in the period of 1995-2005.

Introdução

Oque há de comunicacional nos projetos experimentais (PEs) desenvolvidos pelos alunos do curso de Comunicação da PUC Minas (campus Coração Eucarístico) das habilitações Jornalismo (JN), Publicidade e Propaganda (PP) e Relações Públicas (RP) no período 1995-2005? Esta é a questão central que norteou a meta-pesquisa “Encontros e Desencontros com o Saber Comunicacional: um estudo da trajetória dos Projetos Experimentais da PUC Minas”4 , objeto de reflexão deste artigo. Trata-se de grande desafio responder a tal indagação, sobretudo quando se consideram a diversidade e dispersão de interfaces, objetos e enfoques teóricos abordados nas pesquisas em Comunicação e, em especial, nos trabalhos de conclusão dos cursos de graduação na área.

Entretanto, a descrição, análise e interpretação dos resultados da referida pesquisa revelam que tal diversidade e dispersão não são ilimitadas, muito menos irreconhecíveis, pois as perspectivas epistemológicas da Comunicação se manifestam seja nas formas de apropriação dos aportes teóricos fornecidos por outros saberes, seja nos próprios referenciais construídos ao longo do desenvolvimento de estudos acadêmicos da Comunicação e das suas subáreas de conhecimento, seja nos métodos e técnicas de investigação empregadas.

Parte-se do pressuposto de que o saber comunicacional se constrói a partir de perspectivas teóricas que contemplem problemáticas específicas da área, ainda que apoiadas em aportes de outras áreas de conhecimento, e não a partir de meros objetos empíricos. Construir o saber comunicacional pressupõe, sobretudo, entender o espectro de processos, atores e articulações que, segundo Marcondes Filho (2002), escapem do empiricismo, do imediatamente reconhecível e do formalmente legitimado. Considera-se, ainda, que a constituição deste saber se ancora na interação dialética entre teoria e empiria, com angulação em problemáticas específicas da comunicação, e que ele se irriga, sobretudo, pela prática da pesquisa empírica (Braga, 2004).

Nessa ótica, a meta-pesquisa a ser discutida no artigo se baseia no estatuto transdisciplinar da comunicação, o que não significa a negação da comunicação como disciplina vinculada às Ciências Sociais ou como um campo de saber híbrido que se articula com diversas áreas, muito menos a submissão de seus referenciais teóricos aos de outros saberes. Transdisciplinaridade nesta pesquisa é compreendida como um novo método de apreensão e transformação do real, mediante o rompimento de fronteiras entre as diversas ciências, bem como entre ciência e tradição e ciência e senso comum. Assim, ao invés de uma delimitação disciplinar do objeto da comunicação, amplia-se o campo de interfaces com outros saberes, sem deixar de desentranhar o que é propriamente comunicacional (Braga, 2004).

Sob tal prisma, o objetivo central da investigação foi o de identificar o que há de comunicacional nos Projetos Experimentais (PEs), a partir de dois movimentos principais: a) o mapeamento quantitativo das interfaces e formas de investigação, entre outras variáveis estreitamente ligadas a essas duas categorias, de 798 projetos desenvolvidos pelos alunos das três habilitações do curso de Comunicação Social, no período de 1995 a 2005, e b) a análise qualitativa dos aportes teórico-conceituais de um corpus constituído por 73 projetos realizados em três anos representativos da vigência de distintas diretrizes político-pedagógicas que nortearam o seu desenvolvimento, ou seja, 1995, 2000 e 2005.

O artigo estrutura-se em três tópicos de discussão cujas dimensões teóricas e empíricas se articulam em todo o texto, além das considerações finais. O primeiro discute a perspectiva e o percurso teórico-epistemológico e metodológico desta meta-pesquisa, explicitando a problematização do objeto de estudo e as mudanças nos objetivos, enfoques e métodos de investigação. O segundo tópico compreende uma síntese analítica dos resultados globais da pesquisa quantitativa, focalizando, sobretudo, as interfaces e as formas de investigação adotadas pelos PEs no período de 1995 a 20055 . Por último, analisam-se os principais resultados da pesquisa qualitativa, a partir de sete exemplos de PEs, levando em conta as seguintes categorias: “autores e obras de referência”, “conceitos-chave” e “abordagens teóricas da comunicação” adotadas pelos projetos realizados nos três anos mencionados. Nas considerações finais, são evidenciados os principais desafios apontados pela meta-pesquisa, e suas implicações na produção de conhecimento em comunicação.

Perspectiva e percurso teórico-epistemológico e metodológico da meta-pesquisa

A formação da identidade epistemológica do saber comunicacional e dos seus agentes acadêmicos tem sido hoje uma preocupação crescente de estudiosos dessa área de conhecimento devido à heterogeneidade de aportes teóricos e metodológicos emprestados de outros saberes, oriundos, sobretudo, das áreas mais consolidadas das ciências sociais e humanas, mais precisamente aos problemas ocasionados pelas interfaces com diversas áreas e, ainda, à possibilidade de redução, enquanto campo de conhecimento, a versões instrumentalistas e tecnicistas.

A percepção de que a comunicação seja apenas um saber aplicado, cabendo a outras disciplinas dar sustentação teórica aos seus estudos, é talvez uma das heranças mais prejudiciais ao avanço dos estudos na área, particularmente no ensino da graduação que, historicamente, emerge e se desenvolve para atender prioritariamente às demandas do mercado profissional. Tal herança, segundo França (2001), está intimamente relacionada aos aspectos difusos da conceituação do objeto comunicacional e da sua natureza.

Contudo, não só o pragmatismo é prejudicial à consolidação deste campo, mas também o teoricismo, ou seja, a adoção de modelos teóricos abstratos, fechados e descontextualizados, gerando distanciamento e desprezo pela empiria (França, 2001). Além disso, a adoção de perspectivas generalistas da comunicação dificulta a apreensão das suas especificidades enquanto processo que não somente interage e promove a mediação entre vários campos sociais, como também institui valores e práticas socioculturais, políticas, econômicas, entre outros. Martín-Barbero considera que esta noção de comunicação se desloca do paradigma da engenharia para o das interfaces e das interações, que ocorrem não apenas entre as esferas da vida social, como também entre os próprios meios e linguagens.

...acreditávamos que existia uma identidade da comunicação, que se dava nos meios e, hoje, não se dá nos meios. Então, onde ocorre? Na interação que possibilita a interface de todos os sentidos, portanto, é uma ‘intermedialidade’, um conceito para pensar a hibridação das linguagens e dos meios. (Martín-Barbero, 2009, p. 153).

Nesse sentido, não se pode perder de vista que o saber comunicacional sempre foi atravessado por articulações e tensionamentos com vários campos de conhecimento e a consolidação deste saber não deve implicar na oposição à diversidade de referenciais fornecidos por eles, pois este é um requisito essencial para o seu amadurecimento. Em outras palavras, o problema não reside na articulação com esta diversidade de saberes, e sim em subsumir as questões comunicacionais as suas teorias e métodos.

Diante desse cenário, esta investigação buscou evidenciar um problema de dimensão epistemológica, de fundamentação do conhecimento comunicacional, da constituição de um saber. Assim, além de propor uma auto-reflexão da pesquisa em comunicação, sugeriu, nesta perspectiva, uma radiografia sobre o acervo dos projetos experimentais existentes no ex-Laboratório de Projetos Experimentais (LPE), hoje Centro de Pesquisa em Comunicação (Cepec) – instâncias responsáveis pela supervisão dos PEs.

Essa proposta privilegiava, portanto, a análise das interfaces dos PEs com outros saberes, sobretudo os ligados às Ciências Sociais e Humanas (CSH), a partir de três situações-problema: 1) Projetos que extrapolam o saber comunicacional, migrando para objetos de estudo pertinentes às outras disciplinas das Ciências Sociais e Humanas e, nesse sentido, traduzindo mais uma justaposição de saberes, muitas vezes de forma passiva do que uma efetiva inter ou trandisciplinarização que não perca de vista as questões comunicacionais; 2) Projetos que traduzem visões reducionistas e instrumentais da Comunicação, por focarem estritamente nos meios, técnicas e produtos comunicacionais, em detrimento das suas dimensões simbólicas e socioculturais; 3) Projetos que realizam interfaces efetivas com a comunicação, ou seja, trabalhos que se apropriam de conceitos, teorias e métodos de outras áreas de conhecimento, sem perder o foco na comunicação, como também PEs que contemplam especificidades das áreas profissionais da comunicação, sem deixar de refletir uma compreensão mais abrangente do fenômeno estudado. É importante salientar que essa última situação se mostrava, na época da elaboração do projeto, ainda bastante incipiente, na medida em que a grande maioria deles expressava uma dicotomia entre as perspectivas reducionistas e generalistas da comunicação.

Nessa ótica, a pesquisa propôs como hipótese central a idéia de que a ausência de uma identidade epistemológica do saber comunicacional e a justaposição desse saber às áreas mais consolidadas das CSH geravam dispersão temática e ofuscavam o objeto comunicacional na construção dos projetos experimentais deste curso.

Ao realizar uma taxonomia dos PEs, identificou-se uma diversidade de variáveis que poderiam ser também exploradas para se obter maior refinamento da proposta original e, sobretudo, inserir e articular outras informações que possibilitariam uma compreensão mais ampla da complexidade e diversidade de questões relacionadas às interfaces realizadas pelos trabalhos de conclusão de curso. Um aspecto relevante identificado na taxonomia é que as interfaces não ocorriam apenas com as áreas ligadas às CSH, mas também com as disciplinas vinculadas às Ciências Gerenciais e, em menor grau, às Ciências da Linguagem, entre outras. Outro dado relevante é que as formas de investigação também deveriam ser avaliadas, para possibilitar um exame qualitativo do processo de interação da comunicação com outros saberes, à medida que os métodos trabalhados na pesquisa de comunicação se ancoram em aportes teóricos de outros campos. Além disso, verificou-se que as habilitações e os produtos apresentados como complementos dos trabalhos dissertativos (campanhas publicitárias, planos de comunicação, produção de vídeos, jornais etc.) revelavam aspectos significativos das perspectivas de comunicação adotadas pelos PEs.

Importante salientar, ainda, que a pergunta inicial que norteou a elaboração do projeto de pesquisa - “o que há de comunicacional nos PEs?” se manteve, mas se complexificou a partir da incorporação de novas questões tais como: 1) Em que medida a natureza inter-multi e transdisciplinar dos PEs contribui para que a comunicação seja o objeto central das pesquisas realizadas pelos alunos ou propicia a mera justaposição do saber comunicacional com os aportes pertencente a outros campos de conhecimento?; 2) Até que ponto os PEs que consideram a comunicação como questão prioritária contribuem para o avanço do saber comunicacional ou, ao contrário, reduzem a comunicação a dimensões meramente tecnicistas e instrumentais?; 3) Como tem-se desenvolvido a prática da interface dos objetos e enfoques de comunicação abordados pelos PEs com outras áreas durante o período de onze anos de experiência de pesquisa no curso?; 4) Quais os fatores estruturais e conjunturais do curso condicionantes da escolha de temas e enfoques dos PEs? 5) Os PEs desenvolvidos no período apontam para a consolidação de algumas áreas de pesquisa relevantes e pertinentes ao avanço do saber comunicacional?

Diante do exposto, os autores do projeto optaram por ampliar as categorias de análise dos PEs, como também por promover um recorte do período de análise inicialmente proposto, buscando contemplar fatores estruturais e conjunturais do curso e do desenvolvimento dos PEs que condicionavam as escolhas de temas e enfoques. Assim, foram identificadas fases significativas do desenvolvimento dos PEs que deveriam ser consideradas na constituição do corpus da pesquisa qualitativa.

Dessa forma, o corpus foi constituído pelos PEs realizados em 1995, 2000 e 2005, por serem os anos mais representativos de mudanças de diretrizes na orientação e supervisão dos PEs. No ano de 1995 terminava a vigência da primeira fase de funcionamento dos projetos experimentais no curso, marcada pela incipiência epistemológica do campo comunicacional e pela grande influência das abordagens sociológicas da comunicação, tendo em vista o perfil dos supervisores e orientadores dos PEs, em sua maioria, oriundos do Departamento de Sociologia da Universidade. Além disso, o gênero monográfico, predominante nesta fase, propiciava o desenvolvimento de projetos ancorados sobretudo em aportes teóricos de outras disciplinas das CSH. Já em 2000, implantou-se novo projeto pedagógico e curricular no curso, resultando na criação do Laboratório de Projetos Experimentais (LPE) que abrigou maior número de supervisores de comunicação, na implantação de novas modalidades de projetos experimentais – Produção, Planejamento e Experimentação de Linguagens, além da manutenção da modalidade Dissertativa/Monográfica – e na ampliação da sua infra-estrutura laboratorial, o que possibilitou melhor qualidade técnico-estética dos projetos que apresentavam produtos de comunicação (videos, jornais, campanhas publicitárias, entre outros). O ano de 2005 representou o momento inicial da implantação da nova estrutura de funcionamento dos PEs, caracterizada pela transformação do LPE em Centro de Pesquisa em Comunicação (Cepec), que instituiu outra concepção de projetos experimentais – não mais assentada em modalidades, e sim em trabalhos de iniciação científica. Essa mudança foi feita em função do aumento da tendência dos PEs privilegiarem trabalhos práticos ligados às habilitações, em detrimento da reflexão teórica dos objetos investigados. Buscou-se, a partir de então, disseminar a cultura de pesquisa no curso e obter maior consonância entre as práticas investigativas dos PEs e as políticas e programas dos órgãos de fomento à iniciação científica.

Em síntese, as mudanças ocorridas durante o processo de investigação não comprometeram os objetivos iniciais do projeto, mas sim contribuíram para maior aprofundamento dos dados apontados pela pesquisa quantitativa, e, sobretudo para promover uma articulação mais efetiva entre esses dados e as categorias de análise da pesquisa qualitativa.

A pesquisa compreendeu várias etapas em que foram empregados diferentes métodos e técnicas de levantamento, organização, análise e interpretação. No entanto, este artigo focalizará somente duas fases, porque sintetizam e consolidam os resultados mais significativos desta meta-pesquisa.

A primeira etapa consistiu na realização de um levantamento quantitativo da totalidade do universo de PEs desenvolvidos, entre 1995 e 2005 que, além de identificar interfaces, mapeou as seguintes variáveis: “formas de investigação”, “conteúdos temáticos”, “modalidades dos PEs relativas aos produtos de comunicação” apresentados (Produção, Planejamento ou Experimentação de Linguagens), “habilitação” e “ano de realização”.

A segunda e última fase, de natureza qualitativa, foi realizada com vistas a identificar e analisar o referencial teórico dos PEs, mediante análise de conteúdo das seguintes variáveis: “autores de referência”, “obras de referência”, “abordagens teóricas”, “conceitos-chave”. O corpus da análise qualitativa foi constituído por 50% dos projetos realizados em 1995, 2000 e 2005, ou seja, 73 PEs escolhidos por meio de sorteio, que considerou a representatividade das variáveis: “PEs com ou sem interfaces”, “formas de investigação”, “PEs com ou sem produtos de comunicação”, e “habilitação”6 .

A análise do corpus levou em conta as seguintes categorias: 1) Perspectivas de comunicação adotadas nos PEs, quais sejam: instrumental, generalista e processual; 2) PEs que privilegiam ou não abordagem teórica da comunicação; 3) PEs que privilegiam ou não conceituação de comunicação7 ; 4) PEs que apresentam frágil conceituação de comunicação8 . Tais categorias foram consideradas centrais para se identificar e analisar o que há de comunicacional nos PEs, em suas dimensões teórico-epistemológicas. Entretanto, nem todas as variáveis e categorias serão abordadas neste artigo, tendo em vista que algumas delas, a exemplo das interfaces, já foram detalhadas em outros textos (Mattos, 2006; Braga et al.,2008 a; Mattos, 2008; Braga et al., 2008 b).

Como se verá a seguir, esta investigação trouxe grandes desafios a serem enfrentados pelo curso e pelo Cepec para que os PEs se transformem efetivamente em pesquisas de iniciação científica em comunicação, sobretudo em projetos experimentais em que o comunicacional seja tratado, dialeticamente, na sua singularidade, complexidade e diversidade.

Síntese analítica da pesquisa quantitativa sobre os Projetos Experimentais da PUC Minas

Interfaces

O mapeamento dos 798 PEs mostra que 40% deles não realizam interfaces com outras áreas de conhecimento, centrando-se em abordagens específicas da Comunicação ou de uma das habilitações oferecidas no curso.

Quanto aos projetos que realizam interfaces com outras áreas de conhecimento, destacam-se os seguintes resultados gerais: 17% com Marketing, 13% com Sociologia, 6% com Antropologia, 5% com Semiótica, 4% com Turismologia e 3% com Ciência Política. Além disso, 12% do somatório de PEs mostram pesquisas que interagem com saberes que alcançam percentuais entre 1% a 2% com os que se integram na categoria “Outros” (referem-se às áreas que os PEs realizaram interfaces com percentuais abaixo de 0,5%).

O que mais chama a atenção no período pesquisado é a recorrente aproximação entre os percentuais de interfaces com a Sociologia e com o Marketing, embora esse último seja predominante em quase todo o período, com algumas exceções9 . Trata-se de uma oscilação entre campos de saber que adotam perspectivas bastante distintas na abordagem de seus objetos de investigação.

Em relação à natureza das disciplinas com que os projetos realizam interfaces, verificou-se que 44% vinculam-se às Ciências Sociais (CS), 42% às Ciências Gerenciais (CG) e 14% às Ciências da Linguagem (CL)10 . Nota-se que os percentuais das interfaces predominantes e da sua vinculação às ciências sociais e gerenciais11 estão bem próximos, o que reforça a tendência dos PEs em adotarem perspectivas bastante diferenciadas.

Trata-se, na visão de Tremblay (2004), de uma tendência mais ampla das comunicações, que se convertem, cada vez mais, em espaço de encontro e de conflito entre as ciências da gestão e as ciências sociais, o que não deixa de afetar as orientações de ensino, da pesquisa e das teorias da comunicação. Para ele, a questão problemática da primeira é que a perspectiva gerencial tende a marginalizar a reflexão teórica e a abordagem do objeto comunicacional.

Sintetizando, este panorama revelou três aspectos problemáticos. O primeiro deles diz respeito à perspectiva de comunicação adotada pelos PEs na interface com o Marketing, que se mostra mais trabalhada em termos operacionais do que processuais, já que privilegia produtos e estratégias de gestão de marca, de pessoas e de organizações. O segundo aspecto é que parte expressiva dos PES, que fazem interfaces com a Sociologia, deixa em segundo plano as problemáticas e os aportes teóricos da Comunicação. Por fim, a pesquisa revela o baixíssimo índice de PEs que realizam interfaces com as disciplinas vinculadas às Ciências da Linguagem, a exemplo da Semiótica, entre outras, que totalizam apenas 9% de todo o universo, na medida em que a dimensão sígnica da comunicação é muito pouco investigada.

A partir desses dados, confirma-se que a diversidade de áreas de conhecimento contempladas pelos PEs reflete a multiplicidade de tendências dos estudos em comunicação, os quais buscam referenciais em vários saberes para dar conta da complexidade dos processos comunicacionais nas dimensões sociocultural, política e técnico-administrativa. No entanto, a pulverização de interfaces identificada nesta meta-pesquisa evidencia também a instabilidade no campo da Comunicação que diz respeito, por um lado, à indefinição de interfaces que lhe são mais pertinentes e relevantes e, por outro, à dificuldade de identificação das teorias, dos objetos e métodos de investigação que lhe são mais apropriados.

Como se abordará adiante, os problemas da área da Comunicação e, em particular, dos PEs, são também causados pelas formas parciais e inadequadas de apropriação de métodos e procedimentos de pesquisa gerados por outros saberes. Ou seja, pelo baixo investimento da área na construção, sistematização e seleção de técnicas e métodos de pesquisa pertinentes ao campo.

Formas de investigação

Os modos de investigação, denominados pelos autores deste artigo de formas de investigação (FI), constituem os meios de abordagem do “real”, fixam o quadro instrumental da apreensão dos dados e devem, segundo Bruyne et al. (1982), estar em concordância com as técnicas de sua coleta. As FIs podem se combinar e reforçar-se mutuamente e seu emprego depende do objeto de pesquisa, do estado de conhecimentos e de múltiplas contingências que interferem no processo de realização da pesquisa.

De acordo com os dados globais das formas de investigação desenvolvidos nos PEs, essas foram agrupadas em quatro blocos. No primeiro agrupamento, constam as FI com maior incidência, totalizando 71% dos PEs investigados, tais como: Pesquisa Diagnóstica (21%), seguida de Estudo de Caso (18%), Pesquisa Bibliográfica e Pesquisa de Campo (16% cada). Tendo em vista sua representatividade, optou-se por considerar na discussão conceitual do presente artigo apenas essas FIs 12

A Pesquisa Diagnóstica, entre todas as FIs adotadas nos PEs, foi a que atingiu maior percentual do universo investigado: quatro percentuais acima do alcançado pelo Estudo de Caso (EC). A predominância dessa forma de investigação deu-se especialmente entre 1995 e 2000, ainda assim, obtendo índices expressivos em períodos subseqüentes. Já o EC chegou a índices elevados ao longo de todo o período investigado, sendo a segunda FI mais utilizada nos projetos experimentais. O EC é entendido como um método que se propõe a adquirir conhecimento de um fenômeno adequado a partir da exploração intensa de um único caso. Referenciados em definição semelhante a esta, outros autores observam que o EC, ao buscar apreender a totalidade de uma situação, reúne informações numerosas e detalhadas por meio de técnicas variadas (observações, entrevistas, documentos) e freqüentemente refinadas: “observação participante, sociometria aplicada à organização, pesquisa de tipo etnográfico” (Bruyny et al., 1982, p.225).

Alguns EC são essencialmente descritivos, tomam a forma de um ensaio e buscam descrever a complexidade de uma situação concreta sem pretensão de generalização. Grande parte dos PEs investigados se enquadra nessa tipificação de EC, ou seja, estudo descritivo de um fenômeno ou situação de comunicação singular, e não de múltiplos casos. Outros tipos de EC perseguem objetivos práticos e freqüentemente utilitários, seja porque visam a formular o diagnóstico de uma organização, seja porque pretendem prescrever alguma terapêutica ou mudar uma situação.

Apesar dessas duas modalidades de pesquisa terem recebido denominações e conceituações diferentes nesta investigação, elas se assemelham em alguns aspectos problemáticos, particularmente no que se refere à falta de clareza na distinção entre “problemas de conhecimento” e “problemas práticos” na pesquisa em comunicação.

São os problemas de conhecimento que direcionam a pesquisa. Um problema prático pede uma solução. As soluções são geralmente desenvolvidas por meio de interferências no ambiente mesmo das situações problemáticas, tipicamente profissionais (“O que fazer para que...?”; “Como obter mais qualidade em tal processo?” (...) Ficaremos, então, com os “problemas de conhecimento”: “o que é preciso saber sobre tal situação?”; “O que deveremos descobrir sobre ela para que nosso conhecimento da realidade em foco seja ampliado?” (Braga, 2007, p.12).

Dessa forma, o que acontece freqüentemente com algumas formas de investigação adotadas nos PEs, é que um segmento expressivo dos alunos e professores/orientadores do curso considera que o espaço de realização dos projetos pode ser trabalhado para suprir a “falta de prática”. Em síntese, somando os percentuais alcançados pelos EC (18%) com os da PD (21%), obtém-se índice de 39% de projetos experimentais que privilegiam a dimensão operacional do objeto de pesquisa, o que revela grande fragilidade teórico-metodológica da pesquisa de iniciação científica.

Trata-se de aspecto problemático da metodologia de pesquisa em comunicação, chamado por Maldonado (2006) de “empiricismo abstrato”, uma vez que propicia a naturalização de receituários, esquemas, modelos, fórmulas, categorias, técnicas e rituais como se fossem “a pesquisa”. No caso dos projetos pesquisados, verificou-se a tendência à adoção de manuais técnicos, o que representa, sem sombra de dúvida, fortes entraves para adequar os procedimentos metodológicos às premissas da pesquisa de natureza científica.

A Pesquisa Bibliográfica (PB), terceira FI mais utilizada nos projetos, consiste num apanhado geral da literatura sobre o tema e seu objetivo é levantar conceitos teóricos e dados atualizados que possam nortear e enriquecer a pesquisa. Os projetos que trabalham exclusivamente com essa forma de investigação, 16% do total, em sua maioria, não têm interfaces. Conforme Stumpf, “da identificação do problema e objetivos do estudo, passando por sua fundamentação teórica e conceitual pela escolha da metodologia e da análise de dados, a consulta à literatura pertinente se faz necessária” (2005, p.54). Entretanto, nem sempre as pesquisas em comunicação realizam contextualização e problematização pertinentes dos objetos de estudo, limitando-se com frequência a repetirem e colarem informações produzidas por autores e estudos que muitas vezes fazem referências a realidades distantes dos contextos estudados, quando não deslocadas de questões e problemáticas singulares da comunicação.

A despeito desses entraves, é importante ressaltar que a PB tem enorme importância na construção de um projeto que se propõe a ser um trabalho de iniciação científica, e não um mero produto empírico. Deve-se destacar ainda a importância da interação entre o referencial teórico e a interpretação dos resultados para não cair naquilo que Lopes (2004, p. 29) denomina de falta de visão metodológica integrada, isto é, “(...) toda visão dicotômica que dissocia o nível teórico da pesquisa, do nível metódico-técnico, e a etapa da definição do objeto, da etapa da observação ou do trabalho de campo”.

Os dados globais das formas de investigação mostraram que a Pesquisa de Campo (PC) ocupou o quarto lugar entre os projetos experimentais pesquisados, com o mesmo percentual alcançado pela Pesquisa Bibliográfica (16%). O índice obtido por esta forma de investigação teve grande oscilação durante o período da investigação, variando entre 4% em 2003 e 31% em 2002. Como ocorreu com a utilização das FIs Pesquisa Diagnóstica e Estudo de Caso, na Pesquisa de Campo houve predominância de enfoques empiricistas, no mais das vezes desconectados do referencial teórico-conceitual previamente construído.

A Pesquisa de Campo é normalmente empregada para nomear um tipo de investigação localmente determinada. Nessa ótica, a noção de campo é fisicamente determinada, uma vez que “a pesquisa de campo se referia à observação e à interação com as pessoas ‘no seu habitat natural’, no lugar específico da ação fora das paredes do laboratório. O ‘campo’, portanto, era onde o pesquisador ia para fazer seus estudos” (Spink, 2003, p.21). Contudo, os horizontes e os lugares são compreendidos como produtos sociais e não como realidades independentes.

Sob o mesmo prisma, Braga (2004, 2007) considera que a comunicação como processo interacional, em marcha acelerada no cenário contemporâneo e tendente a se tornar um processo de “referência” predominante, não se restringe a uma noção de campo como um locus específico, delineado, distante, marcado por fronteira, como sugere o conceito clássico de pesquisa de campo. Assim, não há campo como fatos independentes e autônomos, nem como um locus específico, mas campo-temas como construções sociais, entendido “como complexo de redes de sentido que se interconectam” (Spink, 2003, p.28). O foco está, portanto, na percepção de construção de sentidos no espaço vivido por indivíduos, grupos, comunidades.

Sintetizando a análise global das formas de investigação mais incidentes nos projetos experimentais, ou seja, as FIs pertencentes ao primeiro bloco, pode-se afirmar que a questão metodológica tem sido um ponto inconsistente dos PEs que, associado a outros aspectos a serem discutidos a seguir, tem levado ao predomínio do empiricismo e à fragilidade teórico-conceitual dos objetos investigados.

Análise qualitativa dos PEs

A análise qualitativa dos PEs objetivou identificar e discutir o referencial teórico-conceitual dos PEs a partir das variáveis “autores e obras de referência”, “abordagens teóricas” e “conceitos-chave”.

No universo global dos projetos experimentais que constituíram o corpus da pesquisa qualitativa (73 PEs), a maioria realiza interfaces com outras áreas, ou seja, 44 PEs, e 29 são específicos de comunicação13 .

Nos PEs com interfaces, Marketing se destaca com 14 projetos, Sociologia com cinco, Administração com quatro, Antropologia com três, Literatura com três, Turismo com três e Ciência Política com dois. O restante apresenta uma pulverização de interfaces, cada área com apenas um projeto14 . Estes dados confirmam os resultados da pesquisa quantitativa, notadamente em relação à predominância do Marketing como área de interface, seguida da Sociologia. Além disso, atesta a expressiva pulverização de áreas de conhecimento com as quais os PEs dialogam.

No que tange às ciências que abarcam as disciplinas com as quais os projetos realizam interfaces, prevalecem as Ciências Gerenciais com 22 PEs e, entre eles, o Marketing com 14 PEs, seguida das sociais e humanas com 17 PEs, sendo cinco da Sociologia, e a da linguagem com cinco PEs.

Quanto às perspectivas de comunicação adotadas pelos projetos que promovem interfaces, 17 se ancoram em visão instrumental, 15 trabalham numa ótica generalista e 12 apresentam concepções processuais da comunicação.

Com relação aos projetos que adotam a ótica instrumental, são considerados nesta pesquisa os projetos que privilegiam a dimensão técnica e operacional da comunicação, seja na escolha e no tratamento de temas, noções, enfoques e autores, seja no próprio desenvolvimento de um plano ou produto comunicacional. Exemplo típico de projetos que se ancoram nessa perspectiva pode ser observado no projeto “Comunicação na Estrada Real  Estudo de caso das cidades de Ouro Preto, Mariana e Congonhas” (nº759/2005). Realizado pelos alunos do curso de Relações Públicas, o projeto tem como abordagem teórica o turismo e o marketing. Seus conceitos-chave são o turismo, marketing e marketing de serviços. O projeto apresenta uma pesquisa bibliográfica descritiva no caso do turismo e baseia-se nos seguintes autores: Philip Kotler e Gary Armstrong; Margarida Kunsch. Desenvolve uma concepção instrumental de comunicação por considerá-la como ferramenta do marketing e submetê-la ao campo mercadológico.

Já os projetos considerados nesta pesquisa como generalistas deixam em segundo plano ou descartam inteiramente as problemáticas de comunicação em função dos aportes teóricos emprestados de outras áreas de conhecimento. Quando tais projetos contemplam a comunicação, parte expressiva deles reserva a ela espaço do mero fazer (um vídeo, um jornal etc.).

Um exemplo que demonstra como os projetos generalistas descartam inteiramente questões comunicacionais e privilegiam a abordagem de outras áreas é o projeto “A melhor jogada da Copa - análise das campanhas publicitárias da Cervejaria Brahma e do grupo Antártica realizadas durante o período da Copa do Mundo de Futebol de 1994 nos EUA” (nº282/1995). Produzido por alunos de Publicidade e Propaganda, o projeto faz interface com a Antropologia e utiliza os conceitos-chave: rito, orgiasmo, ritual de passagem e bebida. Trata-se de uma abordagem tipicamente antropológica da Publicidade, tendo em vista que não se realiza interface efetiva com outro saber, subsumindo as questões comunicacionais aos aportes teórico-conceituais daquela disciplina. A despeito deste projeto se propor a analisar campanhas publicitárias de cervejas, não privilegia abordagem teórica e muito menos conceitos específicos de comunicação, além de nenhum dos três autores mais citados, Roberto da Matta; Arnold van Gennep; Michel Maffesolli pertencerem à área da comunicação.

Ainda em relação aos PEs que realizam interfaces, 12 apresentam perspectiva processual da comunicação. Nessa abordagem, os processos comunicacionais (técnico-midiáticos ou não) mantêm interação com os diversos campos sociais, sem, contudo, subsumir a comunicação nas instâncias sócio-políticas, culturais ou econômicas investigadas. O PE “O Preço de um Sonho: a realidade do esporte que não é mostrada na mídia” (nº774/2005), produzido por alunos de jornalismo, apresenta um estudo que contrapõe a vida real dos atletas à construção de discurso da mídia idealizado sobre eles. Tem como conceitos-chave o atleta-herói, a representação midiática e a construção do discurso sobre o atleta na cobertura do esporte pelos jornais impressos. Nota-se que o projeto articula conceitos e histórias da mitologia grega com o atleta contemporâneo e analisa sua representação pela mídia impressa. Articula ainda o referencial teórico do projeto com a caracterização, análise e interpretação da pesquisa empírica.

Dessa forma, excluindo os projetos que se constroem sob a perspectiva processual, nota-se nos projetos com interfaces que a comunicação fica submetida à predominância, de um lado, da dimensão técnico-instrumental da comunicação e, de outro lado, da perspectiva generalista, que deixa na penumbra problemáticas de comunicação e, em primeiro plano, as teorias e conceitos de outras áreas.

Cabe destacar também nos projetos com interfaces que há relativo equilíbrio entre aqueles que privilegiam as abordagens teóricas da comunicação (22) e os conceitos de comunicação (21). Entre eles, destaca-se o PE “Comunicação no bar: sentidos e significados” (nº 760 / 2005). Elaborado por alunos da habilitação Relações Públicas, realiza estudo sobre identidade, socialidade e interação comunicativa em bares. Prevalecem como conceitos-chave a comunicação como compartilhamento; a interação social; a dimensão simbólica da comunicação; a idéia de recepção e interpretação criadas pela prática social relacionadas ao bar, boteco e botequim. Trata-se de um trabalho que não perde de vista a questão comunicacional, a despeito de abordar referenciais de outras disciplinas das ciências sociais.

Já em relação aos PEs com interfaces que não privilegiam abordagem teórica da comunicação (22) e os que não privilegiam os conceitos da área (10), evidencia-se uma situação ambígua, uma vez que o não emprego de referências teóricas específicas de comunicação não significa necessariamente que os conceitos sejam desprezados por esses projetos.

Quanto à questão específica da conceituação de comunicação, este panorama mostra outro dado preocupante, pois somando-se os PEs que não adotam conceitos da área com os que adotam conceituação frágil de comunicação, obtêm-se um número expressivo, ou seja, 33 no corpus de 44 PEs com interfaces. Com relação aos projetos com conceituação frágil, entende-se nesta pesquisa aqueles projetos em que há uma conceituação de comunicação, porém, incipiente e inconsistente.

Exemplo de projeto com interface sem abordagem teórica e com conceituação frágil de comunicação é o PE “A Psicografia como fenômeno da Comunicação. (nº537/2000). Elaborado por alunos de Relações Públicas, o projeto utiliza os conceitos-chave Espiristismo, Psicografia e Comunicação e Espiritismo. A comunicação neste projeto, além de ser trabalhada em seu sentido transmissional, ancora-se inteiramente na doutrina do espiritismo, em detrimento das dimensões comunicacionais e socioculturais do fenômeno religioso e, sobretudo, da interação entre este campo com o da comunicação. Nota-se, assim, na bibliografia listada a ausência de fontes relacionadas a autores de comunicação, a exceção de Eliseo Verón, citado brevemente no texto.

Na totalidade de projetos experimentais do corpus da pesquisa qualitativa, 29 não realizam interfaces com outras áreas de conhecimento, entre os quais oito pertencentes à habilitação Publicidade e Propaganda, 13 ao Jornalismo e oito às Relações Públicas.

No que diz respeito às perspectivas de comunicação adotadas pelos projetos desta categoria, 15 se ancoram na ótica processual, dez em visão instrumental, e quatro trabalham de forma generalista o objeto da comunicação.

Nota-se pelos dados, que há um aumento relativo de PEs sem interfaces com concepção processual da comunicação em relação aos projetos com interfaces, ou seja, enquanto os primeiros representam mais da metade do universo (15 em 29 PEs), os segundos que totalizam 44 PEs, a minoria (12) trabalha com a perspectiva processual da comunicação. Em outros termos, inverteu-se o posicionamento dessas categorias nos PEs sem e com interfaces.

Nesse sentido, pode-se inferir que um projeto que trabalha a especificidade da comunicação e das suas subáreas de conhecimento não adota necessariamente uma ótica instrumental. Pode-se inferir, sobretudo, que a comunicação enquanto campo de conhecimento pode ser trabalhado na sua dinâmica processual, mesmo quando não se apóia em outras áreas.

Pelo exposto, uma das situações-problema desta pesquisa - de que os PEs sem interfaces tenderiam a se aproximar mais da perspectiva técnico-instrumental da comunicação do que da processual - não foi identificada no corpus analisado. Pelo contrário, os resultados da pesquisa qualitativa dos PEs sem interfaces indicaram uma alteração significativa em relação aos resultados da pesquisa quantitativa, que mostrou a prevalência das abordagens técnico-gerenciais focadas em produtos comunicativos sobre a perspectiva processual.

Exemplo típico de PE sem interface que adota concepção processual da comunicação e articula abordagem teórica da comunicação com seu objeto empírico, pode ser exemplificado pelo projeto “A significação do desenho animado para o público infantil” (nº 238/1995). Desenvolvido por alunos de Publicidade/Propaganda, o trabalho traz um estudo sobre recepção junto a dois segmentos de público: alunos de escolas da zona sul e da periferia de Belo Horizonte, com ênfase nas gramáticas de recepção e nas mediações. Apresenta como conceitos-chave: animação, recepção e mediação. A revisão de literatura apóia-se em autores como Antônio Fausto Neto e Guillermo Orozco Gomes. Aspecto relevante deste exemplo é que ele representa um dos poucos projetos sobre recepção no acervo do Cepec e sobre a perspectiva latino-americana dos estudos de comunicação focados nas mediações socioculturais.

Também nos projetos sem interfaces, há aqueles que se apóiam numa perspectiva instrumental da comunicação e apresentam outros problemas como, por exemplo, ausência de abordagem teórica e ainda conceituação frágil de comunicação. O PE “Análise do Caderno de Turismo do Jornal Estado de Minas” (nº 532/2000) aborda os seguintes conceitos-chave: Turismo, Modalidades de Turismo e, por último, de forma breve e inconsistente, Jornalismo. Embora se ancore em bibliografia da área, este projeto privilegia aspectos comerciais e da política editorial do jornal em detrimento do conteúdo editorial do seu caderno de turismo. Observa-se, assim, a ausência de uma discussão conceitual consistente, além de trabalhar com uma perspectiva instrumental do Jornalismo.

Considerações finais

Como evidenciado na introdução deste artigo, a meta-pesquisa sobre os projetos experimentais dos alunos do curso de Comunicação da PUC Minas (campus Coração Eucarístico) nos conduziu a várias inquietações sobre as dificuldades que esta área de conhecimento enfrenta diante da pluralidade de perspectivas teóricas e metodológicas formuladas por disciplinas afins. Ficam evidentes os problemas com os quais a Comunicação se depara para encontrar suas especificidades na interface com outros saberes. Daí a complexidade de fatores a serem considerados no processo de desenvolvimento e consolidação do saber comunicacional, que não se limita à mera definição do objeto ou das fronteiras entre os diversos referenciais fornecidos por saberes vizinhos, mas demanda investimentos sistemáticos das instituições acadêmicas, tanto da graduação quanto da pós-graduação e de seus docentes e pesquisadores, para que o trabalho de interlocução e mediação com outras áreas não inviabilize sua legitimação como um saber singular.

Nesta direção apontam teóricos e epistemológos que, nos últimos anos, têm desafiado os estudiosos da área a encontrarem a síntese das suas investidas interdisciplinares, deslocando-se do papel de meros testadores e reprodutores de teorias, hipóteses e métodos de outros saberes para o de agentes que formulem seus próprios conceitos, modelos, aportes teóricos e métodos de investigação. Ao mesmo tempo deve-se considerar uma questão instigante colocada por Braga (2007, p. 9): “uma área de conhecimento é constituída muito mais pelas perguntas que articula sobre o mundo, do que pelas teorias que oferece”.

Diante desses desafios e aparentes aporias, a investigação apresentada no artigo revelou-se atravessada por tensões e ambigüidades, deixando a seguinte indagação para guiar futuras pesquisas de iniciação científica em comunicação: como transformar o ensino e a pesquisa em espaços reais de experimentação e produção de conhecimento e, no caso específico dos PEs, como transformá-los em projetos que efetivamente investiguem, problematizem e apreendam a comunicação na sua multidimensionalidade e complexidade?

1Doutora em Comunicação pela UFRJ. Professora na graduação e mestrado em Comunicação Social da PUC Minas. Coordenadora do grupo de pesquisa “Campo Comunicacional e Interfaces”. Email dede_mattos@hotmail.com

2Mestre em Comunicação pela UFRJ. Professor adjunto do curso de Comunicação Social da PUC Minas. Membro do grupo de pesquisa “Campo Comunicacional e Interfaces”. Email jfbraga@uai.com.br

3Especialista em Ciência Política pela UFMG. Professor adjunto do curso de Comunicação Social da PUC Minas. Membro do grupo de pesquisa “Campo Comunicacional e Interfaces”. Email jmilton@pucminas.br

4Esta pesquisa foi financiada pelo Fundo de Incentivo à Pesquisa da PUC Minas e contou com a participação da bolsista Luisa da Silva Monteiro, aluna de Relações Públicas, responsável pelo processamento dos dados, como também dos alunos dos cursos de Geografia desta Universidade, Jonas Antonio Vieira Júnior, e da Ciência da Informação da UFMG, Douglas Corrêa Gomes, que realizaram o tratamento e a formatação dos quadros, gráficos e tabelas da pesquisa quantitiva.

5Este artigo dará mais destaque à discussão conceitual sobre as formas de investigação e aos resultados da pesquisa qualitativa, uma vez que as reflexões epistemológicas sobre as interfaces realizadas pelos projetos experimentais já foram amplamente abordadas em diversas publicações (Ver: Mattos, 2006; Braga et al, 2008a; Mattos, 2008; Braga et al., 2008 b).

6As variáveis “formas de investigação” e “PEs com e sem produtos de comunicação” não foram consideradas na análise qualitativa e sim na quantitativa e, sobretudo, na análise dos cruzamentos de todas as variáveis contempladas no mapeamento do universo global dos PEs desenvolvidos entre 1995 a 2005. No entanto, em função da limitação de espaço, tais variáveis não foram contempladas neste artigo.

7Os PEs que não privilegiam abordagens teóricas e conceitos de comunicação não significam necessariamente que eles não são contemplados, e sim que são colocados em segundo plano ou então inteiramente desprezados.

8A definição de cada categoria será explicitada ao longo da descrição e análise dos PEs.

9No período pesquisado, a Sociologia prevaleceu sobre o Marketing em 1998 e em 2004. Em 1996 e 2001, essas duas áreas de conhecimento alcançaram o mesmo índice.

10As disciplinas mais incidentes nas Ciências Sociais foram: Sociologia, Antropologia, Ciência Política; nas Ciências Gerenciais: Marketing, Administração, Turismologia; e nas Ciências da Linguagem: Semiótica, Estética e Literatura.

11A natureza das ciências com as quais os PEs realizam interfaces foi agrupada em três áreas de conhecimento: Sociais, Gerenciais e Linguagens. Já as interfaces predominantes pertencem a cada uma dessas três ciências. As demais áreas e subáreas de conhecimento não foram quantificadas e agrupadas, em razão dos baixos percentuais obtidos.

12O segundo bloco das FIs, com percentual bem abaixo, constitui-se de Análise de Conteúdo e Análise de Discurso (7% cada), e Análise Comparativa (5%), somando 19%. O terceiro bloco reúne as FIs que estão entre 1% e 4%: Pesquisa Etnográfica (4%), Tradução Intersemiótica (3%) e Pesquisa de Recepção (2%). O último bloco compreende as FIs com menos de 1%.

13Na análise qualitativa, optou-se por trabalhar com números absolutos ao se referir à quantidade de PEs pertencentes às categorias, em face do número reduzido de projetos do corpus constituído, diferentemente da pesquisa quantitativa que adotou porcentagens, em função do amplo universo investigado.

14São as seguintes áreas de conhecimento que compareceram com apenas um projeto: Educação, Estética, Psicologia, Ética, Urbanismo, Religião, História, Semiótica, Moda e Informática.

The aim of this article is to analyze and discuss the main quantitative and qualitative results of the research project Meeting and Avoiding Communicational knowledge: a trajectory study of Experimental Projects of the PUC Minas. The discussion is based on epistemological reflections on the impasses and challenges for the construction and consolidation of contemporary. It focuses the interfaces and the adopted forms of inquiry in the experimental projects developed by Social Communication students in Journalism, Advertising and Propaganda and Public Relations, in the period of 1995-2005.

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Submetido: 30/06/2009, aceito: 12/08/2009





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