doi: 10.4013/ver.2009.23.53.03

Sobre Foucault e o jornalismo
On Foucault and Journalism

Daisi Irmgard Vogel
daisivogel@yahoo.com.br

Resumo. Michel Foucault, embora não se dedique ao estudo do jornalismo, sugere dele uma imagem complexa, situando-o no projeto moderno. O jornalismo dotado de uma data de nascimento, o século XIX. O jornalismo como ao mesmo tempo produto e produtor da vida moderna, associado a toda uma rede de ideários – racionalidade, emancipação, regimes de verdade. O jornalismo como ponto de vazamento de um regime de poder sustentado na visibilidade total, e desse modo ingressando na investigação sobre a sociedade disciplinar. Enfim, o jornalismo como a manifestação extrema de que, no projeto emancipatório, a vigilância democrática era uma utopia.

Abstract. Even though M. Foucault has not written specifically on journalism, he situates journalism within the modernity project suggesting a complex image of it. Journalism as having a birthdate, the XIX century. Journalism being both a product and a producer of modern life, associated to a network of ideas – rationality, emancipation, truth regimens. Journalism as a leakage point of a power regime anchored on the idea of absolute transparency which, thus, places it within Foucault´s bigger project investigating disciplinary society. Journalism as the utmost realization that, within the emancipatory project, democratic vigilance was an utopia.

Num diálogo reproduzido na edição brasileira de “Microfísica do poder”, Michel Foucault (1984b, p. 209-227) se refere ao jornalismo como invenção fundamental do século XIX2. Ele o faz num aposto, ao dizer que foi especificamente o jornalismo que manifestou o caráter utópico de toda uma política do olhar, de toda uma fé moderna, pode-se mesmo dizer, na possibilidade de o melhor poder exercer-se por meio de uma visibilidade completa, numa sociedade transparente. Com Michelle Perrot e Jean-Pierre Barou, falavam do panopticon de Bentham3, quando Perrot pergunta se afinal o panopticon “não é um pouco a ilusão do poder”. Foucault responde, afirmativamente, que esta “é a ilusão de quase todos os reformadores do século XVIII, que deram à opinião uma autoridade considerável”. E continua:

A opinião só podendo ser boa por ser a consciência imediata de todo o corpo social, eles [os reformadores] acreditaram que as pessoas iriam tornar-se virtuosas pelo simples fato de serem olhadas. A opinião era para eles como que uma reatualização espontânea do contrato. Eles desconheciam as condições reais da opinião, as “media”, uma materialidade que obedece aos mecanismos da economia e do poder em forma de imprensa, edição, depois de cinema e televisão.

“Media”, os meios, uma materialidade. A imprensa, a edição, ou seja, os jornais, os periódicos, os livros, são algumas das formas que essa materialidade primeiramente assume, quando começa a formar seu público moderno; formas que obedecem ao mercado e ao conflito de forças. E, por conta disso, a fé no caráter benéfico do conhecimento imediato do corpo social, da transparência, se torna afinal apenas uma utopia, talhada em material abstrato, idéia. Ideal de uma sorte de acesso à realidade total imediata, transparente e clara, tornada possível pela potência comunicativa da mídia. As palavras compreendem a antítese, o imediato é o não-mediado; desconhecer que os agentes formais da mediação são materiais fica sendo desconhecer o filtro da materialidade, o enredamento das formas materiais que são afinal também poderosos agentes culturais, em troca, e nessa troca vulneráveis, com os mecanismos da economia e do poder.Perrot então pergunta se o desconhecimento que os reformistas tinham dos “media” queria dizer que “eles desconheceram que era preciso fazê-los passar pelos 'media’”. Foucault reitera e é neste momento que falará do que pode ser entendido como o corte desmistificador realizado pelo jornalismo, no ideário da época:

E que estes “media” seriam necessariamente comandados por interesses econômico-políticos: Eles não perceberam os componentes materiais e econômicos da opinião. Eles acreditaram que a opinião era justa por natureza, que ela se difundiria por si mesma e que seria um tipo de vigilância democrática. No fundo, foi o jornalismo – invenção fundamental do século XIX – que manifestou o caráter utópico de toda esta política do olhar.

Essas rápidas passagens sugerem uma imagem não exatamente singela do jornalismo e um seu lugar-possível dentro do projeto moderno. O jornalismo curiosamente dotado de uma data de nascimento, o século XIX, o que poderia ser uma mera data não fossem os nascimentos – dos hospitais, das prisões – uma temática recorrente de Foucault. O jornalismo como ao mesmo tempo produto e produtor da vida moderna, associado a toda uma extensa rede de ideários – racionalidade, emancipação, regimes de verdade. O jornalismo inscrito numa conversa cujo tema central é o panopticon, desse modo explicitamente ingressando, como um possível estrato no diagrama, na investigação de Foucault sobre a sociedade disciplinar moderna. Enfim, o jornalismo como a manifestação extrema de que a vigilância democrática era uma utopia.

Dos escritos de Foucault, desconheço que se detenham no jornalismo ou mesmo na mídia; as menções são esparsas, pontuais. No entanto, é certamente possível projetar essa ausência num certo campo de visibilidade, e isso vem sendo feito em diversas frentes, a partir menos das escassas aparições enunciadas, mais de alguns dos procedimentos de elaboração de suas análises, notadamente quando ele procurar compreender a formação histórico-estratégica dos saberes, dos dispositivos, das máquinas sociais. Neste ensaio, experimento algumas margens dessa possibilidade, relendo, com notações nas entrelinhas, essas poucas frases do diálogo sobre o panopticon. O procedimento é o de justapor saberes sobre o jornalismo, um tanto aleatoriamente, a estratégias analíticas e posições intelectuais de Foucault. O itinerário é, a partir do diálogo em que Foucault se refere ao jornalismo como manifestação radical do caráter utópico da política do olhar, desenvolvida desde o Século das Luzes, organizar algumas considerações sobre o que se diz afinal quando se diz jornalismo. Essas considerações são perpassadas pelo problema da legitimação do sistema textual do jornalismo, como discurso da verdade, e pelo paradoxo da tarefa com que esse sistema ingressa no projeto da modernidade, de ao mesmo tempo informar e emancipar, agenciar e docilizar os indivíduos, sendo materialmente submissa a interesses político-comerciais.

De partida, para entender a posição que Foucault atribui ao jornalismo, é preciso atentar para o que ele propriamente refere como tal. As palavras, como se sabe, sofrem viragens dentro do campo discursivo, e a afirmação de que o jornalismo é uma invenção do século XIX implica uma dessas situações. Mesmo Foucault emprega a palavra com diferentes nexos. Quando afirma, por exemplo, que para ele “a filosofia é uma espécie de jornalismo radical” (Foucault, 1994, p. 434), está defendendo uma prática filosófica comprometida com as questões de seu tempo, com as problemáticas da atualidade. A menção de uma radicalidade desse modelo sugere que, por sua raiz, o jornalismo tem a obsessão pelo atual. Esse uso da palavra “jornalismo” parece, no entanto, diferenciado do uso na conversa sobre a política do olhar, na qual ele parece abranger um corpo mais amplo, o jornalismo como um estrato, uma formação.

Nesta circunstância, é necessário considerar que, o que quer que se possa entender por jornalismo, não terá florescido igual e sincronicamente em todas as partes. Também é pertinente lembrar que os mais primitivos jornais de que se tem notícia circularam na Alemanha e na Holanda no início do século XVII. Não serem eles restritamente informativos e noticiosos não os exclui a priori do que se possa chamar de jornalismo, se anacronicamente lançarmos sobre eles uma concepção contemporaneamente válida, do jornalismo como produção e difusão mediada de um conjunto rigorosamente ordenado de textos4 que, com periodicidade regular, não apenas informa, mas entretém e faz compartilhar referências5 .

John Hartley (1996) considera o jornalismo e a própria modernidade como produtos europeus, formados ao longo dos últimos trezentos anos num mesmo panorama de desenvolvimento das ciências e de pulsão por verdade, de consenso racional em torno de um projeto de liberdade, progresso e esclarecimento universal. A modernidade, para Hartley, pode ser caracterizada pela aceitação de um dos princípios primeiros do Iluminismo, a soberania popular – uma soberania que é estimulada, governada e explorada por aqueles que inventam o “público” (ibid., p. 47). Nessa perspectiva, o momento de inflexão para algo que, apesar de sua extraordinária dimensão e diversidade, pode ser chamado de jornalismo, seria o quartel final do século XVIII, em especial a virada política da Revolução Francesa. Será no século XIX, porém, que os leitores de jornais efetivamente consolidam a formação de um público e de uma cultura popular. Teríamos, aí, a característica de uma maior capilaridade e, por extensão, para retornar a Foucault, um espaço para o exercício microfísico do poder.

Michael Schudson (1999), que realiza sua verificação na experiência norte-americana, aponta que o século XIX marca o jornalismo pelo surgimento de gêneros textuais específicos e técnicas de apuração próprias, como a notícia, a reportagem e a entrevista. Propondo que a noção de notícia é uma categoria historicamente constituída, e não algo universal e atemporal das sociedades humanas, ele situa a sua invenção no período do surgimento dos “penny press”, os jornais vendidos nas ruas a preços populares (ibid., p. 38). Foi em 1833 que circulou nos Estados Unidos o primeiro jornal de um “penny” voltado a atender a massa de leitores designados como “o homem comum” (Emery, 1965, p. 231, aspas no original). O século XIX é, assim, o momento de estruturação da indústria do jornal, com a incorporação de tecnologias que propiciaram maior organização interna, rapidez e alcance, tanto na produção como na distribuição e na comercialização das edições.

Enquanto formação histórica, portanto, o “sistema” jornalístico de produção e disseminação de notícias e opiniões se torna, na Europa e nos Estados Unidos do século XIX, um dos modos principais de conexão de um público de leitores, criado pelos jornais, com outros sistemas, como o da política, da economia e do controle social (Hartley, 1996, p. 35). Definiu-se ali um conjunto de características presente ainda agora no jornalismo. É certo que as tendências cientificista e realista, marcantes na segunda metade do século XIX, pretendiam distinguir, nas ações e comportamentos dos agentes sociais, o verdadeiro, o real, do ilusório, como se fosse possível “tocar” imediatamente na história, para além das representações e do imaginário (Baczko, 1986, p. 297). Sabemos, contudo, que a abordagem cientificista, em vez de observar os agentes sociais desnudados, de fato os construía. E que a realidade das esferas culturais, políticas e econômicas era bem mais uma mescla de fantasia e informação do que uma realidade “objetiva”, que o jornalismo pudesse “refletir”. Donde o problema da transparência e da própria questão do discurso da verdade são muito mais relativos a um modo de ordenação das coisas e das relações, em que ficções e símbolos se multiplicam em todas as esferas, do que apenas uma limitação interna ao jornalismo.

É esse o jornalismo, ao mesmo tempo profissionalizado, legitimado, polifônico, ventríloquo, empresarial e premido pelos prazos, que é mencionado, provavelmente, por Foucault. Um jornalismo que, fundado no exercício de um discurso de verdade, estruturalmente tendente à proliferação de informação e opinião, parecia ser um mecanismo criador de transparência, mas resvalava ao reduzir o complexo universo do imaginário social a um real que só poderia resultar deformado. Concretamente, desde essa época o jornalismo vive o desafio de preservar seu estatuto de veracidade e seu intuito formativo/informativo em meio ao ruído geral da comunicação da mídia. Como observou Gianni Vattimo (1996), mais do que transparência, a proliferação da informação criou a opacidade do caos.

A formulação do panóptico de Bentham, Foucault a encontrou quando estudava as origens da medicina clínica. Ele queria estudar a arquitetura hospitalar na segunda metade do século XVIII, para ver como o olhar médico se inscrevera efetivamente no espaço social, ou, como diz, “como a nova forma hospitalar era ao mesmo tempo o efeito e o suporte de um novo tipo de olhar” (Foucault, 1984b, p. 209). Olhando projetos de hospitais, percebeu que a proposta da visibilidade total, de um olhar centralizado sobre corpos, indivíduos e coisas, era um princípio construtivo constante, que ao mesmo tempo dividia e deixava abertos os espaços. Depois, olhando para projetos para reorganizar prisões datados do início do século XIX, viu que eles mantinham o tema da visibilidade total, porém já influenciados pelo panopticon de Bentham. Comprovou que a procura por um certo “efeito de visibilidade” na organização do espaço, com um ponto central de controle (saber e poder), que é a idéia do panóptico, era experimentada já antes de Bentham, mas foi este quem a formulou, fazendo dela um verdadeiro invento: um sistema ótico que é uma tecnologia de poder, para resolver o problema da vigilância6.

Em termos de projeto social, Foucault percebeu em Bentham uma complementação de Rousseau, na medida em que este vislumbrava a formação de uma sociedade transparente, que fosse visível e legível em todas as suas partes; que cada um, a partir de seu lugar, pudesse ver o conjunto da sociedade; que houvesse uma comunicação total e que a opinião reinasse, “a de cada um sobre cada um”. Era como que o lirismo da revolução. Bentham, verificou Foucault, tinha ao mesmo tempo essa ânsia pela transparência e o seu contrário, com sua obsessão por organizar a visibilidade em torno de um olhar dominador e vigilante.

Já desde o século XVII a burguesia européia começara a desenvolver, em torno de si e para si, um espaço discursivo específico, que abrangia todo um domínio de instituições sociais, inclusive as publicações periódicas. Ali poderia circular livremente um discurso racional, e assim se formaria uma opinião pública informada, resistente às arbitrariedades da autocracia. Basicamente, parecia criar-se algo como um espaço transparente, a esfera pública, em que os indivíduos se constituiriam como sujeitos discursantes, partilhando uma idéia de razão universal. No período da Revolução Francesa, foram atribuídos objetivos humanistas à visibilidade organizada. Num novo regime de justiça, em que prevalecesse a igualdade, a opinião se tornaria a instância de julgamento.

Aliás, durante todo o Século das Luzes difundiu-se o horror do espaço escuro, em que as pessoas, as coisas, as verdades, e mesmo os espaços obscuros no homem, não são plenamente visíveis. Foucault observa que a visibilidade total apresentou-se como possibilidade de redução ou mesmo supressão da punição, numa forma mais eficiente de exercício do controle e do poder, na medida em que menos estimuladora de resistências. Todos se sentiriam num campo de visibilidade, em que o olhar, o discurso, a opinião dos outros imporia limites às práticas nocivas. Nesses locais de transparências e visibilidades da opinião, o poder poderia ser exercido pelo simples fato de que as coisas eram sabidas, pela constituição de espaços de legibilidade. O jornalismo seria, sem dúvida, idealmente um lócus da imagem plena, de visibilidade plena. Não tivessem, nem ele nem o mundo, as suas materialidades.

Como todo mecanismo de vigilância, por mais democrático que seja, também o jornalismo desempenha uma função de adestramento, e resta sempre relembrar o quão o adestramento foi e é salutar no âmbito da cultura, e que ele não é idêntico, por princípio, à doma ou à domesticação. O adestramento seria como uma fase seguinte, de formação do domesticado. O adestramento permite formar opiniões, contrapô-las, apreciá-las. E assim como tende à estabilização, ao hegemônico, permite, como demonstrou Nietzsche, que se edifiquem os edifícios da cultura. Permite o partilhamento coletivo dos lugares-comuns, que indicam uma forma de organização social do discurso e são mesmo fundamentais, desde que em permanente crítica.

Porém, mais que adestramento fundador e crítico, o próprio Foucault apontou, em seus estudos, para a função docilizante do jornalismo. Como forma de proteção da riqueza na sociedade industrial, houve, segundo ele, no século XIX, uma ofensiva de moralização sobre a população, uma ofensiva para constituir o povo com sujeito moral. O povo foi distinguido, separado da delinqüência, e os delinqüentes foram definidos como aqueles que são perigosos para todos e quaisquer grupos. Para essa missão moralizante e estabilizante, Foucault (1984b, p. 133) aponta a importância da literatura policial e das páginas policiais nos jornais, com suas narrativas de crimes. Em “Pontos de vista”, afirma, por exemplo, que o jornalismo, assim como a literatura policial, o cinema e a televisão, são instrumentos de produção do medo pelos grandes criminosos, tornando assim natural a presença da polícia no meio da população (in Machado, 2005, p. 126).

Outra verificação de Foucault, que acompanha o Nietzsche contundente do ensaio sobre a verdade e a mentira no sentido extra-moral, é o vínculo ativo entre poder e verdade. A rigor, a verdade, dirá Foucault (1984b, p. 12), não existe fora do poder ou sem poder. Cada sociedade tem seu regime, sua política de verdade, definindo os tipos de discursos que ela faz funcionar como verdadeiros. A isso se associam mecanismos para distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, técnicas e procedimentos valorizados para se obter a verdade, e um estatuto aos que têm o encargo de dizer o verdadeiro:

Em nossas sociedades, a “economia política” da verdade tem cinco características historicamente importantes: a “verdade” é centrada na forma do discurso científico e nas instituições que o produzem; está submetida a uma constante incitação econômica e política (necessidade de verdade tanto para a produção econômica, quanto para o poder político); é objeto, de várias formas, de uma imensa difusão e de um imenso consumo (circula nos aparelhos de educação ou de informação, cuja extensão no corpo social é relativamente grande, não obstante algumas limitações rigorosas); é produzida e transmitida sob o controle, não exclusivo, mas dominante, de alguns grandes aparelhos políticos ou econômicos (universidade, exército, escritura, meios de comunicação); enfim, é objeto de debate político e de confronto social (as lutas “ideológicas”) (Ibid., p. 13).

Assim, algumas das questões que Foucault apresenta em relação ao intelectual, como alguém que emite discursos de verdade e aciona regimes de verdade, são válidas também para o jornalismo. A primeira delas é o reconhecimento de que esse pesquisador e/ou jornalista ocupam uma posição específica, ligada às funções gerais do dispositivo de verdade em nossas sociedades. Essa especificidade está relacionada com uma posição de classe, com condições de vida e trabalho e com a política de verdades nas sociedades contemporâneas. No modo como confrontam o problema da verdade, as práticas e fundamentos do jornalismo têm efeitos e implicações que não se restringem aos campos profissional e setorial. Elas operam ao nível mais geral do regime de verdade, que é essencial para o funcionamento da sociedade.

Por isso mesmo a questão acerca do jornalismo como um saber moderno vem acompanhada, ou se desdobra, na questão da distinção possível entre o jornalismo e outras formas de comunicação. Segundo Hartley (1996, p. 42), a notícia é um campo discursivo permanentemente premido entre o ruído da comunicação e o duro lugar da verdade, tendo que constantemente se distanciar e diferenciar pela recorrência dos seus dispositivos legitimadores. Samuel Winch (1997), ao debater as fronteiras do jornalismo, vai estruturar a distinção possível do jornalismo, diante do sensacionalismo, na autoridade cultural do jornalista, que precisa ser constantemente reforçada e legitimada. Essa autoridade cultural, diz ele, se apóia na capacidade de prover informações “importantes” de modo coerente e confiável. Desse modo, acaba por referir-se ao jornalismo como um modo de dizer que vem organizado segundo uma lógica reconhecível (o que confere à forma a qualificação de coerência) e provido de uma aura de verdade (na medida em que é confiável).

A legitimidade da autoridade cultural se apóia, ainda segundo Winch, em três pilares: a aceitação dos pares (a própria inscrição num periódico jornalístico indica essa aceitação prévia, e no caso brasileiro, a obrigatoriedade do diploma também é um mecanismo de aceitação); a legitimidade cognitiva (em que se inserem as metodologias racionais e objetivas que preponderam na caracterização do trabalho jornalístico); e a legitimidade moral (que implica a idéia do altruísmo e da função de serviço público). Donde a idéia de um discurso de verdade vem explicitamente associada a uma perspectiva moral. E o problema político essencial, seja para o intelectual, seja para o jornalista, não é mais a crítica ideológica, mas a crítica da própria política da verdade, do regime de sua produção. Foucault sabe que não é possível libertar a verdade do poder, dado que a própria verdade é poder, mas coloca como desafio político o rompimento do poder da verdade com as formas da hegemonia.

Em linhas gerais, portanto, as reflexões de Foucault sugerem uma abordagem diagramática para o jornalismo, pensado como campo de saber e poder. Em termos metodológicos, há, primeiramente, o conjunto de procedimentos por ele apresentadas no início dos anos 1960, que centravam a atenção na história das ciências, dos saberes disciplinados, e, depois, um segundo momento de inflexão em seu método, em meados dos anos 1970, quando ele introduz a questão do poder nas análises históricas, percebendo-o como instrumento capaz de explicar a produção dos saberes7.

Assim, no início da década de 1960, Foucault propôs verificar as condições do nascimento da psiquiatria estudando os saberes sobre a loucura, sem se restringir a épocas e a campos disciplinares. Sua posição, naquele momento, é a de não se limitar ao nível do discurso para tentar entender esse nascimento. No exercício de imaginar essas proposições de método deslocadas da psiquiatria para o jornalismo8 , ou seja, para procurar estabelecer o momento e as condições de possibilidade do nascimento do jornalismo, teríamos, primeiramente, que tomar a decisão de estudar os saberes sobre a comunicação de informações, referências e distrações. Também teríamos que tomar a história do jornalismo, como conceito (necessariamente abstrato, ou abstraído) e como campo próprio de saber, não como um desenvolvimento contínuo e linear, baseado na busca de precursores cada vez mais remotos e origens perdidas no tempo, e sem distinguir os efeitos de um corte epistemológico, separando ciência e pré-ciência.

Com esses pressupostos, o passo seguinte, na análise de Foucault, foi propor relações entre os saberes, sendo eles tomados de maneira positiva, não submetidos intencionalmente ao enquadramento rígido e ao juízo de saberes que lhe são posteriores na cronologia. Essas relações instituem regularidades e possibilitam apreender formações discursivas específicas. É nesse ponto, provavelmente, que a história das comunicações e das mídias deixa de ser a história mesma do jornalismo. Talvez desse procedimento resulte a possibilidade de dizer que o jornalismo é uma invenção do século XIX, por ser esse o momento em que ele se manifesta como formação própria dentro de uma configuração mais ampla, e, simultaneamente, como resultado dessa configuração.

Outra proposição metodológica inovadora, naquele momento de pesquisa de Foucault, era a de extrapolar o nível do discurso para tentar entender a formação histórica da psiquiatria. Ele se voltou aos espaços institucionais de controle dos loucos, para encontrar discursos teóricos heterogêneos sobre a loucura e sobre a posição diante do louco. Pode-se seguir nesse deslocamento de objeto, para o jornalismo? Um pouco inseguramente: veríamos as situações/lugares, os cronotopos, como os vê Mikhail Bakhtin em sua determinante especificidade literária, os cronotopos em que a comunicação das novidades e das referências socioculturais começa a se definir como algo que se institucionaliza e sobre o qual se estabelecem abstrações que são, também, delimitadoras, regulamentadoras.

A análise se voltaria, então, a esses espaços institucionais de controle das notícias, para aí acumular discursos teóricos heterogêneos sobre o a produção e disseminação de informações, e sobre as relações que se estabelecem efetivamente nas práticas dessa produção e disseminação. Uma hipótese a ser verificada, nessa análise, é a de que a noção de jornalismo não remete diretamente à essência das verdades formativas/informativas, mas é, sim, um processo de sistematização e regulamentação de suas práticas. Ou seja, sobre os cronotopos nos quais a comunicação das novidades e das referências socioculturais começa a se definir, a se institucionalizar, se estabelecem abstrações que são, também, delimitadoras, regulamentadoras e, principalmente, tanto mais metafóricas quanto mais convertidas em conceito. Donde, ao usarmos a metáfora “jornalismo”, apenas aludirmos ao que ali, histórica, social, discursivamente organizamos como “jornalismo”. Figura como metafísica a idéia de algo como um jornalismo essencial – materialização da Idéia.

Poderíamos então considerar a diferença entre as formas de produção, disseminação e valoração das verdades formativas/informativas dos períodos anteriores à época moderna, e as formas e definições heterogêneas que elas assumem a partir daquele momento. O movimento não é o de oposição, de contrapor o jornalismo moderno ao seu passado, como não se contrapõe racionalidade à irracionalidade, verdade a erro. Existe, sim, uma ruptura, de um momento a outro, uma ruptura ligada bem mais a uma autonomização radical do valor atribuído às verdades e da sua finalidade. Uma análise arqueológica, como a proposta por Foucault, tende a explicitar os princípios de organização dos saberes sobre a comunicação, evidenciando, por exemplo, se considerarmos a contribuição de Walter Benjamim, que, se o jornalismo moderno diverge dos modos de produção e difusão de referências vigentes em períodos anteriores, é que estes estavam fundados muito mais na sedimentação cumulativa de narrativas formativas, enquanto aquele encontra seus princípios na formação pela informação.

Uma análise que siga parcialmente esse percurso metodológico vai articular os saberes sobre a produção e difusão da informação a planos além do discursivo. É o plano da organização do público e do privado, em que podemos sempre recorrer a Jürgen Habermas e sua descrição da formação da esfera pública burguesa. Ou o plano das instituições formadoras “clássicas”, que são a família e a igreja, e das transformações políticas e sociais agudas, como a Revolução Francesa – trajetória essa solidamente estabelecida por John Hartley, em estudos como o já referido Popular reality.

Da arqueologia das ciências humanas Foucault partirá, num momento seguinte (meados da década de 1970), para a genealogia, com outra maneira de formular a sua questão-chave. Em vez de perguntar como os saberes surgiam e mudavam, ele vai perguntar por que eles surgem e mudam. Vai tentar compreender o aparecimento dos saberes a partir de condições de possibilidade que lhes são externas; com isso, vai situar os saberes como elementos de um dispositivo de natureza estratégica. A questão do poder ingressa nas análises como instrumento capaz de explicar a produção dos saberes.

Segundo Roberto Machado (1984, p. XIII), uma das preocupações centrais de Foucault, nesse momento de seus estudos, era procurar pelo nível molecular de exercício do poder sem partir do macro para o micro. Ele não se dispunha a colocar o Estado sozinho no centro do poder, nem a compreender a rede de poderes das sociedades modernas como extensão simples do poder do Estado. Sua estratégia, numa análise ascendente, era partir da especificidade da questão, ou seja, dos mecanismos de poder que estão relacionados com a produção de determinados saberes, para então ver como esses micro-poderes, que apresentam história e tecnologias específicas, se inscrevem no nível mais geral do poder de Estado.

Ora: o jornalismo é nitidamente um mecanismo de poder, intimamente ligado à produção de determinados saberes. Isso vai aparecer na própria análise de Foucault, quando ele situa o nascimento do jornalismo no ambiente da política do olhar e na sua verificação de como as páginas policiais e narrativas de crimes foram essenciais para a definição de uma moral do povo e de um conjunto de saberes sobre a criminalidade e a delinqüência. Aqui retorna a idéia dos mecanismos de adestramento, concebidos não em termos apenas negativos, de repressão, de mascaramento, mas positivamente, como dispositivos de poder que instituem rituais e domínios de verdade.

Poderíamos, portanto, pensar o jornalismo como um estrato, formação histórica, feito de coisas e de palavras, de ver e de falar, de regiões de visibilidade e campos de legibilidade (Deleuze, 1988, p. 57). O visível tem uma forma e uma substância: o jornal, por exemplo, e o que nele vem publicado, as reportagens, as matérias. O legível também tem forma e substância: os critérios de noticiabilidade, por exemplo, e os eventos do mundo como objeto de enunciados. Assim como os critérios de noticiabilidade definem um campo do dizível (os enunciados-notícia), o jornal define um local do visível (uma sorte de panóptico, local de onde se pode ver tudo, sem ser visto).

Dessa forma, o jornalismo pode ser compreendido como um saber, no sentido que lhe confere Foucault: o saber definido pelas combinações de visível e dizível próprias de cada estrato, de cada formação histórica. “O saber é um agenciamento prático, um ‘dispositivo de enunciados e de visibilidades’” (Deleuze, 1988, p. 60). Trata-se de um saber que não é igual nem se reduz à ciência, embora possa para ela ser orientado, mas não se reduz basicamente porque inclui outras inclinações, sejam estéticas, éticas ou políticas. Ora, o jornal (em qualquer suporte) é um espaço de legibilidade, que permite que as mais coisas sejam sabidas por mais pessoas, em mais lugares e em intervalos pequenos de tempo (quando não instantaneamente, simultaneamente). Integra uma articulação complexa, com diferentes mecanismos de poder que atuam, cada qual com sua especificidade, por meio de conexões, repercussões, complementaridades. O jornalismo é, também, um mecanismo reformativo, que exibe a punição dos desvios e reprime a transgressão. Pode-se mesmo considerar que é a adaptação de uma tecnologia jurídica, posta a funcionar em nome de um projeto emancipatório, porém uma tecnologia que traz, em si mesma, a semente da opacidade, da intransparência, da impossibilidade da vigilância democrática.

Uma “época”, dizia Gilles Deleuze (1988, p. 58), ao sintetizar a forma como Michel Foucault constituiu uma compreensão do saber, não preexiste aos enunciados que a exprimem, nem às visibilidades que a preenchem. Daí a centralidade do jornalismo. Um regime textual de legibilidades e visibilidades que, ao mesmo tempo, ordenou a modernidade e desmistificou a sua utopia.

1Doutora em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina, é professora do Departamento de Jornalismo da mesma universidade. Faz estágio de pós-doutoramento na UFF. E-mail daisivogel@yahoo.com.br

2Uma primeira versão deste ensaio foi apresentada no VI Encontro Nacional da Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), em São Bernardo do Campo (SP), novembro de 2008.

3O diálogo, com o título L’oeil du pouvoir, integra uma reedição francesa de Le panoptique, de Jeremy Bentham; Paris, Pierre Belfon, 1977 – conforme indicam as referências bibliográficas do volume Microfísica do poder, organizado por Roberto Machado.

4Texto designando manifestação simbólica em quaisquer linguagens e suportes.

5Mar de Fontcuberta (2002, p. 28-30) aponta quatro funções sociais chave aponta para o jornalismo: informar, formar, distrair e tematizar.

6É sabido, com enfatiza o próprio Foucault, que o princípio da visibilidade não comanda toda a tecnologia do poder desde o século XIX, e que os mecanismos de poder acionados nas sociedades modernas são numerosos. “[...as] mudanças econômicas do século XVIII tornaram necessário fazer circular os efeitos de poder, por canais cada vez mais sutis, chegando até os próprios indivíduos, seus corpos, seus gestos, cada um de seus desempenhos cotidianos.” (Foucault, 1984, p. 214.) Mas também é fato que a ordenação do espaço, para alcançar finalidades econômicas e políticas, torna-se manifesta no final do século XVIII.

7Todo o mapeamento dos procedimentos metodológicos de Foucault, apresentado na seqüência deste ensaio, segue a análise feita por Roberto Machado em sua introdução à Microfísica do poder (1984).

8Esse é um exercício que contraria a atitude de Foucault, que negava a constituição de um método diretamente aplicável a quaisquer objetos. É preciso mesmo sublinhar que Foucault não propôs um método estável, com regras definidas. Sua prática baseava-se em análises fragmentárias, mutáveis.

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Submetido: 09/06/2009, aceito: 09/08/2009





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