O censo de 1872 e a utopia estatística do Brasil Imperial

Alexandre de Paiva Rio Camargo

Resumo


O presente texto realiza uma análise do discurso da primeira contagem exaustiva da população brasileira e das suas condições institucionais de produção. Inicia pelo exame do censo visto de dentro, isto é, a partir dos serviços litúrgicos que viabilizaram a operação censitária e das escolhas que levaram à construção de uma utopia estatística para um Império que queria se mostrar externamente poderoso e civilizado. Como mostrou a historiografia com que aqui dialogamos, a inclusão de categorias centrais assumiu um sentido original, de maneira a produzir uma população internamente hierarquizada (pela “condição” e pela “profissão”) e homogênea (pela “língua” e pela “religião”), espelhando as clivagens por meio das quais as elites imperiais se viam e imaginavam o país e sua gente. O artigo pretende contribuir para esta discussão, fazendo uso de documentação administrativa, diplomática e legislativa, obras de memória estatística e fontes ainda pouco conhecidas, como os três únicos boletins de família preenchidos e preservados do censo de 1872, para realçar a distância entre a lógica presente no preenchimento dos questionários e os procedimentos de tabulação dos resultados, especialmente na “condição” e na “profissão”. Para examinar esta distância, assume como hipótese que o olhar do recenseador ainda não se encontrava disciplinado por protocolos observacionais, o que dependeria do trabalho infraestrutural realizado pela autoridade política centralizada. Por fim, examina as inovações do censo à luz da tradição estatística do Império, marcada pela persistência das estimativas populacionais – iniciativa de particulares cuja fonte de autoridade se encontrava no prestígio pessoal de seus realizadores –, aqui analisadas como um registro de verdade que rivalizava com a credibilidade da estatística oficial.

Palavras-chave: estudos sociais da quantificação, construção do Estado, história da ciência.


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