Chamada de Artigos

Vol. 57, nº 1 (jan-abr, 2021)

Dossiê: Fronteiras Étnicas, Biodiversidade, Conflitos e Resistências na Amazônia

 

Organizadores: Sandoval Alves Rocha (UNISINOS); Renilda Aparecida Costa (UFAM); Nelson Obregón Neira (Pontifícia Universidade Javeriana)

Data limite de envio dos artigos: 09/11/2020

Amazônia é um espaço onde diferentes grupos sociais com nacionalidades distintas convivem, constituindo fronteiras não só territoriais, mas também fronteiras étnicas com interações e tensões sociais. Além de incluir seis estados do Brasil (Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima) e parte de outros três (Maranhão, Mato Grosso e Tocantins), a Amazônia está presente em mais oito países latino-americanos: Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa.

Este cenário revela um complexo emaranhado de relações culturais, políticas e econômicas, permeado por marcadores de gênero, raça/etnia, classe social e religião. Assim as diferenças étnico-raciais são características marcantes da Amazônia, fazendo parte de um complexo fronteiriço internacional. Ademais o constante trânsito de pessoas dos países fronteiriços impõe aos mesmos processos que constituem suas identidades na fronteira entre a identidade nacional e internacional, reforçando as dinâmicas de reconfiguração.

Ressalta-se que, os projetos implantados na Amazônia são elaborados a partir de fora da região e, muitas vezes representam interesses das elites regionais, nacionais e internacionais, mas ignoram as preocupações dos seus habitantes, nem possuem a sensibilidade ambiental necessária para a preservação do ecossistema, colocando em perigo a sua integralidade. Neste sentido, os direitos fundamentais são rotineiramente violados. Não são poucos os lugares onde o Estado de Direito é desconhecido, atropelado pelo poder financeiro que, não raro, resulta de financiamento público e de atividades ilegais que movimentam fortunas, subjugam povos, aniquilam o meio ambiente, tornando o crime a prática habitual e inconteste.

Esta lógica predatória que vem historicamente se consolidando na Amazônia gera conflitos causados, principalmente pelas políticas de desenvolvimento adotadas nesta imensa região, desembocando consequências desastrosas tanto para a sua biodiversidade quanto para as múltiplas etnias que a habitam. Estes conflitos perpassam não somente as zonas urbanas, mas também emergem nas áreas rurais, atingindo as comunidades tradicionais, principalmente, indígenas e quilombolas.

Tais conflitos possuem repercussões nacionais e internacionais, não somente por estarmos tratando de uma região importante na manutenção do ecossistema planetário (temperatura, umidade e diversidade biológica), mas também por ser um espaço vital que revela grupos sociais singulares enquanto humanidade, uma vez que abriga centenas de povos e culturas diferentes.

Contudo há uma resistência a estes processos de exclusão e desigualdades que se manifesta através de movimentos sociais e organizações da sociedade civil, tais como: o Movimento Negro, Movimentos/Organizações Indígenas, Comunidades Quilombolas e Comunidades Tradicionais de Terreiros, reunindo grupos étnico-raciais que contribuíram na formação social e cultural da região. Tais grupos, que pelo revés da história, muitas vezes foram invisibilizados e a silenciados, contemporaneamente, fazem o enfrentamento para construção de outra história de reconhecimento da dignidade humana.

No campo das ciências humanas e sociais, percebe-se o esforço intelectual, com consideráveis avanços na compreensão da Amazônia, sendo perceptível o crescimento de inúmeros estudos, desenvolvidos em diversos programas de pós-graduação vinculados a universidades presentes na região. Todavia, há ainda temas a serem pesquisados, ou outros que necessitam serem revisitados com enfoques diferenciados, relacionando questões ambientais, econômicas, sociais, culturais.

Portanto, o dossiê Fronteiras étnicas, biodiversidade, conflitos e resistência na Amazônia, propõe-se a receber artigos que sejam resultados de pesquisas de estudos interdisciplinares, análises que explicitem como emergem os conflitos que afetam os diferentes grupos étnico-raciais e a biodiversidade na Amazônia, além de evidenciarem como se constroem as resistências através do reconhecimento das fronteiras étnicas que permeam a complexidade da constuição identitária dos amazônidas